sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010 | By: Beatriz Santos Gonçalves

...mais do que tudo no mundo, queria encher-lha até à borda e sentir os olhos dele sobre mim enquanto o fazia

"Então, um dia, a Tia ficou furiosa quando eu entornei chá sobre uma revista que ela estava a ler. A coisa mais estranha foi que eu tinha estado cheia de pensamentos amáveis em relação a ela no exacto momento em que se virou contra mim. Senti-me terrivelmente triste depois, e dei comigo a pensar na minha irmã, que estaria algures no Japão sem mim; e na minha mãe, que eu agora esperava que estivesse em paz no paraíso; e no meu pai, que tinha sido tão rápido em vender-nos e viver o resto da sua vida sozinho. Enquanto estes pensamentos corriam pela minha cabeça, o meu corpo começou a ficar pesado. Por isso subi as escadas e fui para o quarto onde a Abóbora e eu dormíamos - porque a Mãe me tinha mudado para lá depois de Mameha ter visitado a nossa okiya. Em vez de me deitar sobre os tapetes do tatami a chorar, movi o meu braço numa espécie de movimento de varrer à frente do peito. Não sei porque o fiz; era um movimento de uma dança que tinha estudado naquela manhã, que me parecia a mim muito triste. Ao mesmo tempo pensei no Director e como a minha vida seria tão melhor se eu pudesse confiar num homem como ele. Enquanto observava o meu braço a varrer através do ar, a doçura daquele movimento parecia-me exprimir os sentimentos de tristeza e desejo. 0 meu braço passou através do ar com uma grande dignidade de movimento - não como uma folha a flutuar de uma árvore, mas como um navio dos oceanos a deslizar pela água. Calculo que por «dignidade» eu quisesse dizer uma espécie de autoconfiança, ou seguramente, de um tipo para a qual nem uma pequena brisa de vento nem o chapinhar de uma onda iriam fazer qualquer diferença.
0 que eu descobri nessa tarde foi que, quando o meu corpo se sente pesado, me podia mover com grande dignidade. E se eu imaginasse o Director a observar-me, o meu gesto adquiria uma tal expressão de sentimento profundo que às vezes cada movimento de uma dança significava uma qualquer pequena interacção com ele. Dar uma volta com a cabeça ligeiramente inclinada num determinado ângulo poderia representar a pergunta: «Onde poderemos passar o nosso dia juntos, Director?» Estendendo o braço e abrindo o meu leque dobrado dizia quão grata eu me sentia por ele me ter honrado com a sua presença. E quando eu estalava o leque para se fechar mais tarde na dança, isso era quando eu lhe dizia que nada na vida me importava mais do que agradar-lhe."




"Não dormi durante toda essa noite. 0 que eu tinha desejado durante tanto tempo estava finalmente a começar a acontecer, e oh, como o estômago me dava voltas! A ideia de me vestir com roupas maravilhosas que eu admirava, e de me apresentar a uma sala cheia de homens era o suficiente para me fazer as palmas das mãos brilhar com suor. De cada vez que pensava no assunto, sentia o nervosismo mais delicioso que me fazia vibrar dos joelhos até ao peito. Imaginava-me dentro de uma casa de chá, a fazer deslizar a porta abrindo-a para uma sala de tatami. Os homens viravam as cabeças para me olharem; e claro, eu via ali o Director no meio deles. Às vezes imaginava-o sozinho na sala, a usar não um fato de negócios à ocidental, mas a vestimenta japonesa que tantos homens trajavam à noite para se descontraírem. Nos seus dedos, macios como balsa, segurava uma taça de saqué; mais do que tudo no mundo, queria encher-lha até à borda e sentir os olhos dele sobre mim enquanto o fazia."




(Arthur Golden - Trechos de Memórias de Uma Gueixa)

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